sexta-feira, 11 de março de 2011

Verões percebidos

Um vagabundo.

Seus sentimentos... vagabundos também.

Andou à toa, mirando às portas abertas. Tal um cachorro, olhava e, por medo de ser escorraçado, seguia em frente.

Chegando ao final da longa avenida, virou a cabeça sobre o ombro e decidiu não voltar. Disse ininteligíveis palavras a passantes, fonemas que soaram estranhos até mesmo para seus ouvidos, tão acostumados a seu parvo vocabulário. Teve medo de esquecer as poucas palavras que lembrava.

Após a complexa conjunção de ideias, percebeu o tempo. Frio. Até mesmo para um final de outubro estava frio.

Tentou lembrar o que havia feito na noite passada, mas não precisava se esforçar. Tinha percorrido a mesma avenida e pernoitado embaixo da mesma marquise, enrolado em uma velha e esburacada manta.

Menos mal que o calor está próximo, pensou. E se surpreendeu ao perceber que ainda conseguia acompanhar o ritmo frenético do tempo.

E isso aconteceu mesmo. Uma noite, lá pelo meio de novembro, recebeu o primeiro calor da estação com entusiasmo. Seu semblante, algo entre o êxtase e a demência, chamou a atenção de um homem só, parado em uma esquina onde todos lambiam avidamente bolas de sorvete. Tão ávidos, que o vendedor mal dava conta de servir tantos patrões.

Nisso, o homem solitário e pensativo ponderou, é o mesmo verão, mas enquanto o sorveteiro ri, o mendigo gargalha.

E se foi, pela mesma avenida.

Um comentário:

Bárbara disse...

Que bonito isso!
Uma realidade pouco percebida e nunca escrita, ainda mais tão bem!
Adorei!
Beijocas!