terça-feira, 29 de março de 2011

Devaneio ao lusco-fusco


Em um claro afronte

Lanço a vara de pescar
E puxo o sol à linha do horizonte.

domingo, 20 de março de 2011

Pequeno manual para identificação de putas

É comum para grande parte dos homens a presença esporádica em lupanares, casas de tolerância, boates, boites, drinks ou, simplesmente, puteiros. Principalmente, após churrascos da firma ou ao final de noites infrutíferas. Porém, cabe explicar que em 95% dos casos a ida a esses estabelecimentos se destina, única e exclusivamente, para diversão não sexual. A visita propicia ao macho algumas cervejas a peso de ouro e uma ou outra marca com alguma dançarina maior de 18 anos, de boa aparência e com ganhos diários de até 120 reais. Os outros 5%... Bom, esses sim se refestelam entre lençóis durante uma hora, que na verdade é meia, voltando para suas casas com a fatura futura do cartão de crédito acusando um jantar em um restaurante de subúrbio às cinco e meia da manhã.

Mas, uma dúvida sempre presente, pelo menos para os 5% que mantêm vivo o sonho da abertura de um salão de beleza no interior, é o real prazer sentido pela contratada. É preciso esclarecer que o prazer não é, necessariamente, o sentido na cama, mas a alegria com o ofício diário.

Assim, foram elaboradas algumas dicas para que o frequentador mais distraído possa dirimir qualquer incerteza acerca da realidade do fato ou da verdade de asserção quanto ao velho paradigma de que “o cliente tem sempre razão”.

Sendo assim, para o início da explanação sobre o tema, serão desconsideradas as casas de luxo, onde um prazer real pode ser disfarçado pelo grande fluxo de dinheiro, o que faz qualquer mulher sorrir.

Então, considerando apenas os lupanares menos famosos e as profissionais com preços mais populares, iniciamos o pequeno manual.

1. Desconfie de qualquer profissional muito vestida. Afinal de contas, como já escreveu um grande cronista da vida urbana, não há explicação para uma mulher usar calça comprida e blusa fechada em um ambiente onde ela pode se vestir como uma puta. Afinal de contas, esse é o sonho de toda a mulher.

2. A profissional tem que ser sorridente e fazer logo o convite para a negociação. Qualquer situação diferente evidencia que ela quer apenas que você pague cervejas com ágio e a encha de pulseiras.

3. Alguém que faça um serviço cobrando um preço muito baixo em relação ao valor justo e ainda sorri com isso só pode gostar do ofício. A puta simpática, que tem prazer no que faz, sorri. Muito. Uma analogia perfeita para esse exemplo profissional é o jornalista. Afinal de contas, ele também se fode e está sempre sorrindo por que gosta do que faz.

4. Dispense as profissionais que terminam as frases com “gato”. Essa é a palavra coringa que quer dizer “puta que pariu, to louca pra pegar o busão e voltar pra minha casa”. Provavelmente, para ela, o balanço do ônibus será mais excitante do que os movimentos sexuais do contratante.

5. E, por último, fuja do lugar com plantel reduzido. Aceite, no mínimo, um time de meia dúzia de trabalhadoras. Qualquer situação diferente denota perigo. Isso por que toda casa tem seus frequentadores assíduos, que acabam se envolvendo emocionalmente com as meretrizes e que, ao primeiro sinal da aproximação de um estranho, tendem a ficar agressivos. Ache a porta de saída ao menor olhar atravessado ou ao primeiro impropério com bafo de caninha.

Esse pequeno conjunto de regras facilitará o bom investimento de seu dinheiro, obtendo o prazer que os amigos da firma não podem proporcionar ou se divertindo depois de alguma passagem obscura em alguma festa onde ninguém ficou sozinho. Só você.

Boa sorte!

sexta-feira, 11 de março de 2011

Verões percebidos

Um vagabundo.

Seus sentimentos... vagabundos também.

Andou à toa, mirando às portas abertas. Tal um cachorro, olhava e, por medo de ser escorraçado, seguia em frente.

Chegando ao final da longa avenida, virou a cabeça sobre o ombro e decidiu não voltar. Disse ininteligíveis palavras a passantes, fonemas que soaram estranhos até mesmo para seus ouvidos, tão acostumados a seu parvo vocabulário. Teve medo de esquecer as poucas palavras que lembrava.

Após a complexa conjunção de ideias, percebeu o tempo. Frio. Até mesmo para um final de outubro estava frio.

Tentou lembrar o que havia feito na noite passada, mas não precisava se esforçar. Tinha percorrido a mesma avenida e pernoitado embaixo da mesma marquise, enrolado em uma velha e esburacada manta.

Menos mal que o calor está próximo, pensou. E se surpreendeu ao perceber que ainda conseguia acompanhar o ritmo frenético do tempo.

E isso aconteceu mesmo. Uma noite, lá pelo meio de novembro, recebeu o primeiro calor da estação com entusiasmo. Seu semblante, algo entre o êxtase e a demência, chamou a atenção de um homem só, parado em uma esquina onde todos lambiam avidamente bolas de sorvete. Tão ávidos, que o vendedor mal dava conta de servir tantos patrões.

Nisso, o homem solitário e pensativo ponderou, é o mesmo verão, mas enquanto o sorveteiro ri, o mendigo gargalha.

E se foi, pela mesma avenida.