sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Bar do Aderbal - Episódio 04

Barba negra

Dia ensolarado. O relógio marcava onze horas. O calor fazia com que as primeiras pernas começassem a ser expostas pelas ruas que passavam pelo simpático bar da esquina. E foi assim, absorto por um par de pernas de louça que cruzava seu diminuto campo de visão, que Chica foi surpreendido por Aderbal, que parou de rabiscar os pratos do dia em um tabuleiro preto, patrocinado pelo saudoso Minuano Limão, para se divertir às custas do amigo. Ao se recompor, atrapalhado, o garçom voltou sua atenção à tarefa que executava antes da dispersão.

Chica olhou o grande saco de pães do dia anterior que repousava à sua frente e tentou, com muito afinco, acordá-los para servir de acompanhamento com a sopa. O trabalho fez Chica recordar-se de um caso que aconteceu certa vez envolvendo o seu Abelardo, um ícone da vizinhança.

Em uma tarde de outono, enquanto realizava a mesma tarefa despertadora, nosso simpático garçom se deparou com seu Abelardo. O homem, impaciente e todo espiado, perguntava sobre a sopa que seria servida no almoço.

Religiosamente, o homem tinha o costume de sempre, a caminho de casa pela manhã, passar no Aderbal e forrar o estômago com um prato de sopa. Isso por que, conforme dizia, a comida de sua esposa não poderia, definitivamente, ser classificada como uma autêntica iguaria.

E assim foi. Seu Abelardo tomou a sopa – chupando o tutano dos ossos que eram criteriosamente escolhidos por Chica no açougue do seu Beverli – e se foi a la casa para encarar o grude de sua esposa.

Dono de uma espessa barba negra, com um grande bigode, que mais lembrava uma enorme taturana, seu Abelardo tinha sempre o cuidado de limpar a sopa e as migalhas de pão que se acumulavam em sua vasta penugem facial.

O objetivo do higiênico ato era não magoar sua esposa que, após vinte e cinco anos de casamento, ainda acreditava que havia pego seu Abelardo pela barriga. E, pior que acreditar nisso, ela praticamente obrigava o homem a dizer que os pratos que fazia eram ótimos.

Pois bem. Passado algum tempo, o bom marido, após tomar sua sopa no Adeba, esqueceu-se de retirar os detritos alojados em seu rosto peludo. Ao chegar em casa, surpreendido pela esposa, contou que havia comido na rua, sem revelar o verdadeiro motivo que o levara a fazer isso.

Não queria magoar a boa e velha companheira de tantos anos e de tantas histórias. Agora, se sentia um guri, tendo que se explicar em casa – assim como fazia para a velha matrona, a dona Edwiges. Por isso, não se perdoava pelo esquecimento. Mas, os ânimos se acalmaram, veio a noite e tudo tomou o rumo da paz.

No outro dia, a manhã veio normalmente. Chica em volta com os pães, Aderbal rabiscando no tabuleiro, os carros passando, as pernas de louça (Ah, as pernas de louça...). Porém, ao se aproximar o meio-dia, garçom e patrão notaram algo estranho. Na mesma mesa em que seu Abelardo sentava enquanto aguardava seu pedido diário, um senhor de meia-idade, cabelos ainda pouco grisalhos, com o rosto muito branco, aguardava um prato de sopa.

Após um debate de dois minutos entre Chica e Adeba, os dois perceberam que este senhor escanhoado era o mesmo Abelardo que, até o dia anterior, nem se lembrava que tinha bochechas, visto a quantidade de pelos que brotavam de sua cútis.

Assim, ao se aproximar com o prato de sopa e, indagando o motivo da retirada da barba – que, aliás, era ostentada com orgulho pelo bageense ex-barbudo – ouviu um triste relato do homem.

- A Rosinha me pegou na mentira e descobriu que eu sempre chego em casa já comido. Mas eu inventei qualquer coisa pra ela não descobrir que o problema é com a comida que ela faz. Então, a Rosa me fez jurar que não comeria mais nenhuma outra comida que não fosse a dela. Por isso eu tirei a barba.

Chica, impressionado, replicou:

- Mas, seu Abelardo, o senhor tinha tanto orgulho daquela barba.

- Pois tinha. E me doeu na alma tirá-la. Mas, o que é que eu não faço pra fazer a Rosinha feliz... – disse, tirando um suspiro de dentro da alma, mais comprido que puteada de gago.

E assim foi. A rotina permaneceu a mesma com seu Abelardo que continuava tomando sua rotineira sopa antes de ir almoçar em casa.

O velho tirou a barba, é verdade. Porém, a alegria de Rosinha ao vê-lo comer a comida produzida por ela era tão grande que valia o sacrifício. E, como ele passou a repetir:

- Eu faço tudo pela paz do lar e pela Rosinha. E, afinal das contas, fiquei até mais bonito.

Com essa sentença, Chica franziu o cenho e voltou a seus afazeres no exato momento em que viu dona Rosinha cruzar a porta do bar e levar seu Abelardo pra casa pelo colarinho.

- É. Não adiantou nada – pensou Chica. As vinte e duas giletes acabaram sendo um dinheiro jogado fora.

E riu-se nosso simpático garçom.

4 comentários:

Anônimo disse...

Lendo o teu blog cheguei a uma conclusão: O Bar do Aderbal é o verdadeiro Second Life. Proponho que cada um crie seu avatar, sente numa das mesas e peça um tira-gosto para acompanhar a cerveja gealada. Marcelo

Portal Qualidade Brasil disse...

Boa ideia esta do bar do aderbal na versão second life.

Maria disse...

adoro meu boêmio. ótimo texto. e também me gusta a ideia do second life. besos.

Mateus Ferraz disse...

o aderbal e o chica gostaram da ideia. mas, disseram que não possuem muita habilidade com computadores e, assim, fica difícil reconstruir o bar em um ambiente virtual. se alguém se habilitar...