sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A noite do boêmio


(Epílogo)

Chega a alvorada e surpreende o boêmio em meio à saideira. Não a primeira, mas a sexta ou sétima da noite. Nesse instante, uma suave melancolia toma-lhe de súbito. O malandro, nunca malandrim, despede-se de seus camaradas e toma o rumo de sua casa. Vai lembrando, saudoso e respeitoso, da noite que morrera há alguns minutos. Os primeiros raios de sol (ah, os primeiros raios de sol!), o incomodam, ferem-lhe os olhos. Mas, também, lhe dão a certeza do dever cumprido.


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À cerca de doze horas atrás, recostado em uma poltrona de sua casa, lendo e ouvindo Chico Buarque, começou a mexer-se para ir encontrar a nata da malandragem, conhecidos de tantos carnavais. Se bem que, os verdadeiros malandros são conhecidos apenas no enterro dos ossos, pois muitos que se dizem boêmios são desmascarados já no sábado e, geralmente, com a infeliz frase de que prometem pegar mais leve no ano seguinte.

Assim, levanta-se, encharca-se de água de colônia e vai para o seu posto. Enquanto aguarda os companheiros em seu trono, pede a primeira unidade alcoólica da noite. Sentindo os olhos marejados, efeito tão conhecido, (rival do orvalho...), vê os primeiros rostos conhecidos passando pela diminuta porta do bar. A filosofia noturna terá início.

Entre risos, olhares e idas ao fundo do estabelecimento, o tom de voz vai alteando. As pessoas vão se tornando cada vez mais interessantes. O garçom vira irmão e o dono do bar, ao primeiro sinal de cerrar a entrada, barrando novos amigos e convidando os inclusos a se retirar, passa a ser inimigo mortal.

Com isso, de senhor da mesa, vira peregrino, sempre atrás de um novo local onde possa continuar a teoria da mudança do mundo e, quem sabe, embarcar em alguma aventura. Aliás, a atenção do boêmio segue, basicamente, três coisas: o discurso dos amigos, o garçom e as pernas que passam durante a noite. Tenta, ao mesmo tempo, (e em vão) manter a atenção nos amigos, posicionar-se na alça de mira do garçom para, sem dificuldade, ser visto e compreendido ao menor movimento de braço e, ainda, entender a métrica daquelas pernas. O terceiro é o mais difícil e, por isso mesmo, o mais perseguido pelo malandro.

A noite vai passando e, já no quarto bar, ele não vai embora até acompanhar o fechamento de mais este. Segue sozinho, em relação a uma companhia feminina, mas muito bem acompanhado pelos amigos que são, a essas horas, quatro ou cinco que conhecem o valor da universidade da madrugada, da faculdade do lúpulo, das disciplinas do malte, cursadas nas cadeiras de um legítimo boteco.

Assim, Chega a alvorada e surpreende o boêmio em meio à saideira. Não a primeira, mas a sexta ou sétima da noite. Nesse instante, uma suave melancolia toma-lhe de súbito. O malandro, nunca malandrim, despede-se de seus camaradas e toma o rumo de sua casa. Vai lembrando, saudoso e respeitoso, da noite que morrera há alguns minutos. Os primeiros raios de sol, (ah, os primeiros raios de sol!) o incomodam, ferem-lhe os olhos. Mas, também, lhe dão a certeza do dever cumprido.