quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O carreteiro do Polaco

“Puxa um banco e te assenta, vivente. Vô le contá o segredo dum verdadeiro carreteiro, feito com um charque novinho que eu truche inda na semana passada de Santa Fé”.

Foi assim, com o cenho franzido, que Polaco retesou o busto, estufou o peito, e começou a brandir a receita de uma das mais típicas iguarias gaúchas, tão saborosa quanto fácil de fazer. Pelo menos pra ele. Explico:

A coisa iniciou em um bate-papo para uma reportagem – realizada por mim e mais dois colegas – no piquete Espora de Prata, em meio ao Acampamento Farroupilha 2009, quando, entre as perguntas indiscretas que a profissão nos obriga fazer, recebemos o convite de provar um delicioso carreteiro de charque que estava saindo do fogo. Aceitamos, por uma pontinha de educação e um pontão de fome mesmo, e ficamos embasbacados pelo fato de uma comida feita em escala industrial – eram mais de 20 pessoas, em uma chapa de fogão campeiro, ficar tão saborosa.

Ao perguntar como se fazia a coisa – ou cosa, na língua farrapa – Polaco, que até então estava quieto em um canto, dormitando com as mãos cruzadas sobre o peito, soergueu-se e perguntou, com sua voz de tenor:

“Pero, entonces vocês não sabem como se faz um carreteiro?”

Disfarçando um pontaço de vergonha, respondemos com uma negativa em uníssono. Assim, Polaco, índio grosso barbaridade, vindo da fronteira com a banda oriental, nos deu uma rápida lição:

“Pos olha. É mui simple. Tu pega o charque, põe num bacião – ou numa gamela – e dale um banho de uma hora. Depois, tira toda a água e dá mais uma lavada. Despois, numa panela, tem que dá uma fervida, de leve, na carne. O próximo passo é escorrer a água e fritar a carne numa panela com um pouco de banha de porco. Ta, azeite também serve. Bota o arroz e deixa fritar mais um pouco, ingualzinho arroz comum. Pro fim, coloca a água que já ta quase fervendo na chapa do fogão, espera secá e no redepente já ta pronto. Não é simple?”

Pois é. Na explicação do bagual foi simples. E, animados com a didática do velho, fomos correndo pra casa de um dos colegas. Antes, passamos no super e só saímos de lá depois que um vivente convenceu os outros a comprar charque light. Uma frescura, mas tudo bem.

Chegando em frente ao fogão, um Brastemp de inox – “loco” de chique –, tentamos seguir os passos ensinados pelo Polaco. Um desastre. Quando abrimos a colorida embalagem que protegia a carne, a mesma pulou direto no chão branco da cozinha. O óleo esquentou demais e queimou o resto do charque e o arroz, que juntamos depois, e que pulava igual pipoca. Quando colocamos a água, que esquecemos de ferver previamente, a cozinha ficou numa fumaceira só, o que nos obrigou a correr pra rua, acompanhados de tosse convulsiva.

Ao voltarmos, após baixar a cerração, decretamos a perda total daquele carreteiro, pois só um louco se aventuraria a encarar aquela gororoba em que se transformou nossa tão esperada iguaria. E assim, loucos de fome, decidimos tomar uma atitude séria. Ligamos para o 102 e pedimos o número de uma tele-entrega de pizza. De posse do fone, efetuamos o contato e, ao ouvir a pergunta referente à escolha dos sabores, nos olhamos e pedimos, juntos:

- Vê uma pizza de charque!
Por fim, após intermináveis 55 minutos de espera, os quais passamos nos contorcendo de fome, ouvimos uma buzina de motoboy que para nós soou como uma sinfonia de Beethoven. Era a pizza chegando. Uma ótima pizza. Oito grandes pedaços de lombo canadense que nos pareceram um banquete.

E quanto à pizza de charque, pelo riso da atendente quando fizemos o pedido, achamos que era melhor, no momento, sermos mais ortodoxos. Até por que, não é demérito algum um gaúcho não saber cozinhar e ter que matar a fome com uma pizza de lombo, possivelmente um lombo igual ao que Polaco estava preparando para o jantar daquela noite, com a diferença que o nosso era fatiado. Ah, e canadense.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Bar do Aderbal - Episódio 04

Barba negra

Dia ensolarado. O relógio marcava onze horas. O calor fazia com que as primeiras pernas começassem a ser expostas pelas ruas que passavam pelo simpático bar da esquina. E foi assim, absorto por um par de pernas de louça que cruzava seu diminuto campo de visão, que Chica foi surpreendido por Aderbal, que parou de rabiscar os pratos do dia em um tabuleiro preto, patrocinado pelo saudoso Minuano Limão, para se divertir às custas do amigo. Ao se recompor, atrapalhado, o garçom voltou sua atenção à tarefa que executava antes da dispersão.

Chica olhou o grande saco de pães do dia anterior que repousava à sua frente e tentou, com muito afinco, acordá-los para servir de acompanhamento com a sopa. O trabalho fez Chica recordar-se de um caso que aconteceu certa vez envolvendo o seu Abelardo, um ícone da vizinhança.

Em uma tarde de outono, enquanto realizava a mesma tarefa despertadora, nosso simpático garçom se deparou com seu Abelardo. O homem, impaciente e todo espiado, perguntava sobre a sopa que seria servida no almoço.

Religiosamente, o homem tinha o costume de sempre, a caminho de casa pela manhã, passar no Aderbal e forrar o estômago com um prato de sopa. Isso por que, conforme dizia, a comida de sua esposa não poderia, definitivamente, ser classificada como uma autêntica iguaria.

E assim foi. Seu Abelardo tomou a sopa – chupando o tutano dos ossos que eram criteriosamente escolhidos por Chica no açougue do seu Beverli – e se foi a la casa para encarar o grude de sua esposa.

Dono de uma espessa barba negra, com um grande bigode, que mais lembrava uma enorme taturana, seu Abelardo tinha sempre o cuidado de limpar a sopa e as migalhas de pão que se acumulavam em sua vasta penugem facial.

O objetivo do higiênico ato era não magoar sua esposa que, após vinte e cinco anos de casamento, ainda acreditava que havia pego seu Abelardo pela barriga. E, pior que acreditar nisso, ela praticamente obrigava o homem a dizer que os pratos que fazia eram ótimos.

Pois bem. Passado algum tempo, o bom marido, após tomar sua sopa no Adeba, esqueceu-se de retirar os detritos alojados em seu rosto peludo. Ao chegar em casa, surpreendido pela esposa, contou que havia comido na rua, sem revelar o verdadeiro motivo que o levara a fazer isso.

Não queria magoar a boa e velha companheira de tantos anos e de tantas histórias. Agora, se sentia um guri, tendo que se explicar em casa – assim como fazia para a velha matrona, a dona Edwiges. Por isso, não se perdoava pelo esquecimento. Mas, os ânimos se acalmaram, veio a noite e tudo tomou o rumo da paz.

No outro dia, a manhã veio normalmente. Chica em volta com os pães, Aderbal rabiscando no tabuleiro, os carros passando, as pernas de louça (Ah, as pernas de louça...). Porém, ao se aproximar o meio-dia, garçom e patrão notaram algo estranho. Na mesma mesa em que seu Abelardo sentava enquanto aguardava seu pedido diário, um senhor de meia-idade, cabelos ainda pouco grisalhos, com o rosto muito branco, aguardava um prato de sopa.

Após um debate de dois minutos entre Chica e Adeba, os dois perceberam que este senhor escanhoado era o mesmo Abelardo que, até o dia anterior, nem se lembrava que tinha bochechas, visto a quantidade de pelos que brotavam de sua cútis.

Assim, ao se aproximar com o prato de sopa e, indagando o motivo da retirada da barba – que, aliás, era ostentada com orgulho pelo bageense ex-barbudo – ouviu um triste relato do homem.

- A Rosinha me pegou na mentira e descobriu que eu sempre chego em casa já comido. Mas eu inventei qualquer coisa pra ela não descobrir que o problema é com a comida que ela faz. Então, a Rosa me fez jurar que não comeria mais nenhuma outra comida que não fosse a dela. Por isso eu tirei a barba.

Chica, impressionado, replicou:

- Mas, seu Abelardo, o senhor tinha tanto orgulho daquela barba.

- Pois tinha. E me doeu na alma tirá-la. Mas, o que é que eu não faço pra fazer a Rosinha feliz... – disse, tirando um suspiro de dentro da alma, mais comprido que puteada de gago.

E assim foi. A rotina permaneceu a mesma com seu Abelardo que continuava tomando sua rotineira sopa antes de ir almoçar em casa.

O velho tirou a barba, é verdade. Porém, a alegria de Rosinha ao vê-lo comer a comida produzida por ela era tão grande que valia o sacrifício. E, como ele passou a repetir:

- Eu faço tudo pela paz do lar e pela Rosinha. E, afinal das contas, fiquei até mais bonito.

Com essa sentença, Chica franziu o cenho e voltou a seus afazeres no exato momento em que viu dona Rosinha cruzar a porta do bar e levar seu Abelardo pra casa pelo colarinho.

- É. Não adiantou nada – pensou Chica. As vinte e duas giletes acabaram sendo um dinheiro jogado fora.

E riu-se nosso simpático garçom.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A noite do boêmio


(Epílogo)

Chega a alvorada e surpreende o boêmio em meio à saideira. Não a primeira, mas a sexta ou sétima da noite. Nesse instante, uma suave melancolia toma-lhe de súbito. O malandro, nunca malandrim, despede-se de seus camaradas e toma o rumo de sua casa. Vai lembrando, saudoso e respeitoso, da noite que morrera há alguns minutos. Os primeiros raios de sol (ah, os primeiros raios de sol!), o incomodam, ferem-lhe os olhos. Mas, também, lhe dão a certeza do dever cumprido.


***


À cerca de doze horas atrás, recostado em uma poltrona de sua casa, lendo e ouvindo Chico Buarque, começou a mexer-se para ir encontrar a nata da malandragem, conhecidos de tantos carnavais. Se bem que, os verdadeiros malandros são conhecidos apenas no enterro dos ossos, pois muitos que se dizem boêmios são desmascarados já no sábado e, geralmente, com a infeliz frase de que prometem pegar mais leve no ano seguinte.

Assim, levanta-se, encharca-se de água de colônia e vai para o seu posto. Enquanto aguarda os companheiros em seu trono, pede a primeira unidade alcoólica da noite. Sentindo os olhos marejados, efeito tão conhecido, (rival do orvalho...), vê os primeiros rostos conhecidos passando pela diminuta porta do bar. A filosofia noturna terá início.

Entre risos, olhares e idas ao fundo do estabelecimento, o tom de voz vai alteando. As pessoas vão se tornando cada vez mais interessantes. O garçom vira irmão e o dono do bar, ao primeiro sinal de cerrar a entrada, barrando novos amigos e convidando os inclusos a se retirar, passa a ser inimigo mortal.

Com isso, de senhor da mesa, vira peregrino, sempre atrás de um novo local onde possa continuar a teoria da mudança do mundo e, quem sabe, embarcar em alguma aventura. Aliás, a atenção do boêmio segue, basicamente, três coisas: o discurso dos amigos, o garçom e as pernas que passam durante a noite. Tenta, ao mesmo tempo, (e em vão) manter a atenção nos amigos, posicionar-se na alça de mira do garçom para, sem dificuldade, ser visto e compreendido ao menor movimento de braço e, ainda, entender a métrica daquelas pernas. O terceiro é o mais difícil e, por isso mesmo, o mais perseguido pelo malandro.

A noite vai passando e, já no quarto bar, ele não vai embora até acompanhar o fechamento de mais este. Segue sozinho, em relação a uma companhia feminina, mas muito bem acompanhado pelos amigos que são, a essas horas, quatro ou cinco que conhecem o valor da universidade da madrugada, da faculdade do lúpulo, das disciplinas do malte, cursadas nas cadeiras de um legítimo boteco.

Assim, Chega a alvorada e surpreende o boêmio em meio à saideira. Não a primeira, mas a sexta ou sétima da noite. Nesse instante, uma suave melancolia toma-lhe de súbito. O malandro, nunca malandrim, despede-se de seus camaradas e toma o rumo de sua casa. Vai lembrando, saudoso e respeitoso, da noite que morrera há alguns minutos. Os primeiros raios de sol, (ah, os primeiros raios de sol!) o incomodam, ferem-lhe os olhos. Mas, também, lhe dão a certeza do dever cumprido.