quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Darci e a tevê


Darci cresceu em frente à tevê.

Quando criança, mal acordava e já corria para o sofá. Com um sonoro clique, ligava a Telefunken de 14 canais. Assim que os parcos pixels do aparelho formavam a primeira imagem, sua hipnose iniciava. E ali ficava. Como não era fiel a nenhum programa específico, levantava algumas vezes para trocar o canal. Sim, precisava ir até o televisor, pois o controle remoto, tal como conhecemos hoje, ainda não era muito difundido (se bem que alguns usavam um cabo de vassoura para, remotamente, pressionar os botões equivalentes a cada emissora. Darci, contudo, ainda não conhecia o artifício). E assim passeava, como criança que era, pelos vários apresentadores infantis do final dos anos 80 e início dos 90.

Darci, ao chegar o meio-dia, cedia aos apelos de sua mãe:

- Meu filho, vem almoçar e descansa os olhinhos...

Cinco minutos. Esse era o tempo necessário para Darci devorar um bife e uma folha de alface.

Após o ritual, voltava a sua poltrona na sala. Estavam começando os seriados mexicanos.
À tarde, assistia a reapresentações de novelas. Darci nunca se perguntou se valia a pena ver de novo, mas via. Depois, filmes de crianças perdidas, macacos inteligentes ou romances platônicos (pelo menos até a última parte do filme).


Após a sessão de cinema, Darci deglutia o lanche da tarde. Isso em dois minutos, pois tinha que voltar correndo para assistir os humorísticos do horário. E, terminadas as comédias, antes da novela das seis, um evento sempre pegava nosso telespectador de surpresa. A tela da tevê ficava com chuviscos e o som do alto-falante não passava de um monótono chiado. Darci se apressava em levantar para mexer no seletor de imagem. Porém, a meio caminho, sua mãe lhe avisava:

- Não te preocupa. É lá!

- Como assim? – replicava Darci.

- Tu não ouviu? O locutor disse que vão trocar o equipamento. – treplicava a mãe de nosso distraído infante.

Voltando à razão, Darci assistia a novela das seis e a das sete. Pausa para o noticiário local, o nacional. Ao final da sessão informativa, regozijava-o a possibilidade de acompanhar o desfecho da trama das nove horas.

Assim, o pobre menino entrava noite adentro não indo para a cama antes da meia-noite. Dormia até o outro dia, quando o ciclo descrito reiniciava.

***

Darci cresceu e sua relação com a tevê não se modificou. Claro que agora, depois de adulto, seu tempo livre é menor. Como trabalha, perde pelo menos oito horas da programação televisiva. Mesmo assim, nas horas vagas, é fiel ao tubo de imagem que, para ele, é uma janela que reflete toda a verdade do mundo, boa ou má. Ah, sem falar que agora, ao sentar no sofá, tem em seu poder um controle remoto, o que facilitou-lhe as coisas.

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N. A.: Após passar para o papel a história de Darci, a revisei muitas vezes. Embora o personagem tenha sido uma criação minha, sem nenhuma relação com alguma história existente, tive a impressão de que ele realmente existia. Não sei explicar, mas sua vida me condoeu. Tive pena do menino que tinha a televisão como única referência educativa, assim como lamentei pelo jovem que preferia a falsa companhia do equipamento à presença das pessoais reais.

Pensei, pensei. Vi que meu sentimento era fruto da percepção que tenho desta nova sociedade. Não que eu ache que a era da eletrônica seja o fim dos tempos, mas, ao perceber o distanciamento das pessoas devido às novas formas de entretenimento, que limam os contatos tradicionais (aqueles cara-a-cara), cheguei a conclusão de que deveria ter nascido em outra época.

E quanto ao Darci do conto... Continua alienado.

***

Peésse um: Só pra lembrar que o Brasil está cheio de pessoas como o Darci.

Peésse dois: E são pessoas assim que criam a nova geração, votam nos governantes, dão aulas para nossos filhos, etc.

Peésse três: E como diria Jayme Copstein... "Pensem a respeito".

7 comentários:

ISO 9001 BRASIL - Por Desidério disse...

MAZAAAA

TU TA CADA DIA MELHOR HEIN....

MAIS...MAIS...MAIS...MAIS...MAIS

Andressa Xavier disse...

Tenho também a impressão de que devia ter nascido em outra época. Não consigo viver sem computador, internet, celular, rádio, jornal, televisão... Não que seja ruim a tecnologia, mas sei lá. Se não for bem medida, acabamos vendo a vida passar sentados no sofá. =/

Grazi disse...

oi vc ainda existe?

Maria disse...

vou começar uma campanha pró-atualização deste blog.

Maria disse...

atualizaaaaaaaaaaaaaa!

Maria disse...

dando continuidade à campanha: atualizaaa!

Andressa Xavier disse...

tava vendo as atualizações dos meus "blogs favoritos"... o teu tá ganhando disparaaado! 9 meses! hehehe
Aderi à campanha da Maria: atualiza!!!