terça-feira, 29 de julho de 2008

Bar do Aderbal - Episódio 03

Coisa de veado

Um certo dia, ao começar a preparar o bar para os trabalhos da noite, Aderbal ouviu gritos e puteadas de alguém que se aproximava da porta. Num vu, parou a seleção das salsichas para os róti dóguis da noite (laranja pra cá, verde pra lá) e passou a prestar atenção naquela montoeira de impropérios ditos a altos brados. Ouviu o seguinte:

- Onde já se viu? Quem que o Catimbó pensa que é? Não se respeita mais nada mesmo.

Catimbó era um dos apelidos do Evilásio Chorão, dono do Bar do Catimbó, que ficava quase defronte ao Adeba e era um de seus principais concorrentes.

Três segundos de silêncio e Aderbal vê Chica adentrar o bar, vermelho e com seus cacoetes característicos. O dono do bar chamou o garçom até o balcão, tomou posse daquela cachaça batizada com maracujá e camomila (aquela do episódio 02) e prescreveu duas doses ao pobre.

Mais calmo, Chica começou o conto da situação.

- Ora! O Catimbó ta dizendo pra todo mundo que vir até o nosso bar é coisa de veado. Onde já se viu? Quem que o Catimbó pensa que é? Não se respeita mais nada mesmo. Onde já se...

- Calma Chica. Deixa pra mim que eu sou canhoto. O Catimbó vai ter uma boa surpresa.

A galinha d’angola parou de dizer to fraco? Não. Pois é. Nem Chica se acalmou. Mas, como bom escudeiro que era, confiou que o Aderbal daria um jeito na situação.

Vale explicar que Chica não era uma pessoa cheia de preconceitos. O uso da palavra veado só o irritou por ter sido dita de maneira pra lá de pejorativa pelo Catimbó. E pejorativismos em relação ao Bar do Aderbal não eram aceitos pelo Chica, que amava seu emprego e tinha o Aderbal como a um irmão. Só por isso que ficou chateado.

Ao cair a noite, o movimento do bar começou a aumentar. Chica, cego pela raiva que ainda sentia, começou a analisar os clientes que entravam pela diminuta porta do recinto. Nada de anormal.

Porém, lá pelas onze horas, chega um casal meio estranho. Ela de cabelo curto e sem pintura. Ele de cabelo comprido, num rabo de cavalo, cheio de pinduricalhos. Chica se aproximou da mesa e perguntou o que iriam beber. Ela pediu uma cerveja. Ele, uma Fanta uva. Nosso garçom achou estranho, mas atendeu o pedido.

Logo depois, dois amigos engravatados chegaram e pediram martini (Não se esquece da azeitona, ta?).

Duas amigas, a seguir, quiseram experimentar o mondongo frito, uma das especialidades do bar. Chica não achou isso muito ortodoxo.

E assim, analisando quem chegava e quem saía, o garçom continuou o resto da noite. Pensava que Catimbó poderia estar certo, pois aqueles tipos eram muito estranhos mesmo. Mas, fazer o quê? O bar era aber...

Nesse momento, passando das duas da manhã, o pensamento de Chica foi interrompido por um assovio do Aderbal.

- Gostaria da atenção de todos!

Assim que a assistência se aquietou, Adeba iniciou a palestra.

- Tomei conhecimento que o Catimbó, nosso vizinho do bar da frente, anda difamando meu estabelecimento. Disse aos quatro ventos que vir no Aderbal é coisa de veado. Na verdade, eu quero dizer que ele ta certo.

Todos pararam chocados com a declaração. Aderbal prosseguiu:

- Disse que ele ta certo por que o Bar do Aderbal não só é coisa de veado, como é coisa de homem, de mulher, de preto, de branco, de manco, de coxo. Isso por que todo mundo vem no Aderbal. E pra acabar com qualquer mal entendido hoje tem cerveja de graça pra todo mundo.

Ao fim do discurso, a platéia aplaudiu animada e ficou a espera do prometido. Chica, em contrapartida, apenas suspirou e murchou em sua cadeira.

A noite ia ser grande para o nosso garçom preferido.

2 comentários:

maria disse...

adoro as histórias do aderbal porque elas sempre terminam com rodadas grátis de alguma coisa! haha! ótimo texto, amei! mais, mais!

Luck Siqueira disse...

Muito bom esse "folhetim"! Continue escrevendo.

Abraços!