terça-feira, 27 de maio de 2008

Bar do Aderbal - Episódio 02

Mondongo Frito

Banheiros de bar. Sempre uma incógnita. Há casos em que, chegando à porta, surge a dúvida se devemos entrar ou segurar mais um pouco. Isso porque, inicialmente, queremos apenas devolver ao vaso a cerveja pela via fisiológica mais corriqueira. Porém, ao entrar em certas privadas, nos deparamos com um recinto mais fedido que arroto de corvo. Nesses casos, para evitarmos esta exposição desnecessária ao fedor, tentamos utilizar nossa bexiga até o nível máximo, momento em que ela apresenta os primeiros protestos.

Por outro lado – para nossa sorte -, existem proprietários de bares que sabem tratar bem seus clientes, oferecendo, além da cerveja estupidamente gelada para um batalhão, um banheiro em boas condições de uso.

Nesse quesito, o Bar do Aderbal ganha 10. Porém, não pense que você encontrará papel higiênico com aroma de pêssego silvestre, guardanapos ao lado do mictório ou ventinho quente para secar as mãos. Isso não é coisa de boteco. Quem quiser essas chiquezas deve procurá-las em um xópim cênter. O bom banheiro de botequim deve estar, se não com o olor de flores e lavanda, pelos menos com o perfume marcante do alvex. E nesse sentido, Chica não se descuida nem por um minuto. A salinha, ostentando uma imponente placa com as letras W.C., conta apenas com o trono, uma pia e um espelho. Como é usado pelos dois sexos e, sabidamente, as mulheres são mais higiênicas que os machos, existe o rolinho de papel ao alcance da mão de quem estiver sentado no vaso. Claro que o papel não tem frescura. É o de lixa. Mas, cumpre bem a sua tarefa de higienizador íntimo.

O vecê do Bar do Aderbal fica no fundo do estabelecimento, ao lado do balcão. Assim Chica, entre um pedido e outro, sempre dá uma conferida no cheirinho vindo da casinha. Ao sentir qualquer fragrância ofensiva às narinas, nosso garçom preferido corre com uma garrafinha verde e borrifa uns quantos jatos no chão que espalha usando um rodo com um pano enrolado na ponta. Pronto. Tudo perfumado.

Claro que alguns fedores são inevitáveis, principalmente nos dias em que o Aderbal faz seu temível mocotó. Ainda bem que a maioria dos freqüentadores do local é educada, produzindo vapores fétidos com parcimônia. Porém, sempre tem aqueles que erram a pontaria. E o pior: muitas vezes fazendo o número dois. Quando isso acontece, os relaxados ficam à mercê da ira do Chica.

Certa vez, o Helião, um negão de dois metros de altura, ex-beque do time dos Azedos, da vila Rusga, teve o desplante de pintar a porcelana por fora. E ele nem estava tão mal assim. Tinha tomado recém a sexta cerveja e comido a segunda bandeja de mondongo frito, uma das especialidades do bar. Mesmo assim, deixou o banheiro um nojo.

Assim que sentiu o prenúncio da desgraça por via nasal, Chica sacou a garrafa verde e o rodo e se foi ao toalete. Porém, ao ver aquela obra de arte surrealista (com matéria-prima dadaísta) largou tudo no chão e saiu pisando firme. Parou na frente da mesa do Helião bufando. Chica era um sarro quando ficava nervoso. Brotavam-lhe uns cacoetes que só passavam após tomar dois martelinhos de uma cachaça batizada com maracujá e camomila que, estrategicamente, Aderbal deixava sempre a mão. E assim estava Chica, todo se piscando, na frente do Helião. Soltou um extenso repertório de palavrões que só conseguiu fazer com que o ex-beque soltasse uma sonora gargalhada.

Ao ver o desdém do Helião, Chica partiu para as vias de fato. Menos mal que, primeiramente, foi contido pelo ex-ponteiro-direito e o ex-centroavante do time dos Azedos. Porém, a contenção não foi suficiente e logo uma seleção de ex-jogadores segurava nosso simpático garçom.

Nesse momento, vendo a mobilização de onze pessoas para segurar um homem sozinho, o Helião deve ter se assustado, pois, ao ver a cena, engoliu a risada que estava rindo e levantou-se de um pulo. Encaminhou-se para a porta do banheiro, recolheu o alvex e o rodo do chão e pôs-se a limpar o estrago que tinha feito. Logo que terminou, deixando o toalete com o bom cheiro característico, saiu da salinha. Ao ver os rostos estupefatos dos presentes, tentou se explicar:

- Que foi? Sujei o banheiro e limpei. Mas declaro que sou inocente. O que aconteceu é que as minhas tripas não agüentaram esse mondongo estragado que o Chica me serviu.

Ouvindo isso, pela primeira vez na noite, Chica, que não admitia ouvir ninguém levantar suspeitas sobre a comida do bar, realmente saiu do sério. Precisava cobrar a enxovalhada que Helião dera no mondongo frito preparado por ele. Assim, de cabeça quente, não teve cachaça batizada, ex-time ou choro de mulher que o segurasse. Partiu pra cima do homem. Por sorte, o ex-beque se esquivou e tomou o rumo de casa, na vila Rusga. Chica ainda se recompôs, chegou na porta do bar e gritou, para deleite da assistência:

- Vai c-c-cagar e-em ca-casa, p-porco!

Todos contiveram o riso e Chica, triunfante após ter corrido o homem do bar, berrou aos presentes:

- Mondongo frito por conta da casa!

E todos se refestelaram em suas cadeiras.

4 comentários:

Bad Fox disse...

haahaha...sem BAR DO ADERBAL episodio 03 estou esperando.. quandosai avisa...hahahah tah bom!!bjãO

Daniele Telles disse...

Bacana seu blog. Esses tempos passei por aqui, mas não comentei.

Eu tenho dois, mas não atualizo nenhum.

um é danielexavier.blogspot.com e o outro vai no link.

este é sobre trânsito. centralderadio.blospot.com


beijos.

maria disse...

vou lançar uma campanha pela atualização do teu blog.

maria disse...

atualiza! atualiza! atualiza! (em ritmo de musiquinha de torcida)