segunda-feira, 28 de abril de 2008

Uísque, martini e o barman

Ele estava no bar. Sozinho, como de costume. Sentava na mesma mesa de sempre, ao fundo. Gostava da visão que o lugar proporcionava. Podia ver quem entrava, quem saía. Olhava com curiosidade as pernas que passavam. Queria entender a métrica daquelas pernas. Tomava o terceiro uísque da noite. Girava as duas pedras de gelo de seu copo. Sentia os olhos já marejados. Ela entrou...

Loura, pele clara, talvez um metro e setenta, cabelos crespos – sim, naquele dia estavam crespos. Usava um vestido preto que adelgaçava seu corpo já esguio. Sentou-se em um banco alto, em frente ao balcão. Pediu um martini. Dispensou a oliva. Ele a observava...

Ele capturava cada movimento. Chamou-lhe a atenção a pequena gota de martini que, insistente, queria cair-lhe da boca em direção ao queixo e que foi contida por seu dedo médio. Ah, unhas vermelhas. Observava seus olhos curiosos. Olhos que pareciam mais ouvir que ver. E vendo e ouvindo ela continuou, enigmática, no balcão...

Ele decidiu levantar-se. Apoiou as duas mãos na mesa. Recuou. O que diria? Decidiu-se, novamente. De súbito, pôs-se de pé. Caminhou em sua direção. Sentou-se ao seu lado. Iniciou o diálogo:

- Oi.
- Oi.
- João.
- Estela.


Ao fim das palavras, calaram-se. O silêncio imperou. A agitação do bar continuava. Mas eles não ouviam. Apenas se olhavam. Não há como precisar o tempo em que se olharam. A única certeza é que não desviaram os olhos um do outro...

Em um rompante – inesperado, porém desejado – ele pegou sua mão. Isso foi o estopim que esperavam. Levantaram-se juntos. Encaminharam-se para a porta. Ele mal teve tempo de pegar seu casaco. Saíram impetuosamente.

E o barman, que a tudo assistia, parou. Gostaria de saber o final dessa história. Porém, teve que se contentar apenas com a imaginação. Afinal, essa não passou de mais uma história que, para ele, acabou ao passar pela diminuta porta do bar.

terça-feira, 15 de abril de 2008

O Bar do Aderbal - Episódio 01

A Morte do Velhinho

Peixoto - Há quanto tempo a gente vem no Aderbal, hein?

Luís - Sei lá. Sei que faz tempo. Ô Chica, mais uma ceva!

Peixoto – Pois é. Como a gente viu coisa nesse tempo.

Luís – Isso é verdade. Muitas histórias começaram ou acabaram por aqui. Muitas mudanças.

Peixoto - Parece que a única coisa que não muda é o bar. Lembra que na primeira vez que a gente veio aqui o garçom já era o Chica? A fachada barroca, o baleiro em cima do balcão, o cardápio proibido pra hipertensos...

Luís - ... O seu Olavo.

Peixoto – O seu Olavo! Que figura! Triste o fim do seu Olavo.

Luís – Lembra que ele sempre se sentava naquela mesinha ali do fundo?

Peixoto – Claro. Todo dia a mesma coisa. Chegava e pedia:

Seu Olavo – Ô Chica! Vê pra mim aquela fortinha e o açucareiro. Traz também um bolinho de carne.

Luís – Isso durante uns dez anos, se bem me lembro.

Peixoto – É. Mas como todo o homem que abaixa a guarda, se perdeu por um rabo de saia.

Luís – Eu lembro. Ah, eu já conhecia a Zoraida de longa data. Mulata fogosa. Um metro e setenta de pura malícia. Não media palavras. Sabia viver a vida.

Peixoto – E quando chegou aqui parece que, de propósito, foi sentar na mesa do lado à do seu Olavo. Aí começou a perdição do velho.

Luís – Eu ouvi o primeiro contato dos dois. Se não me falha a memória foi isso o que aconteceu:

Seu Olavo – Uma menina sozinha num bar como esse? Ou ta procurando namorado ou fugindo de um.

Zoraida – O senhor é atrevido, sabia? Não to fazendo nem uma coisa nem outra. Vim para tomar uma cerveja. Ta cheio de homem aqui fazendo isso. Qual é o problema?

Seu Olavo – Nenhum, nenhum. Eu sou a favor da igualdade dos sexos. Mas vem cá. Senta aqui comigo que eu te pago uma bebida e ainda te defendo.

Zoraida – Me defende?

Seu Olavo – Ora, minha filha. Você não sabe os perigos que uma moça sozinha pode passar em um bar. Eu tenho tarimba. O garçom já me trata por tu. Senta aqui que o velhinho te cuida.

Luís – E ela foi. Mulata airosa. Não sei o que chamou a atenção dela no seu Olavinho. Dinheiro tinha, mas não era rico. Talvez uns quarenta anos mais velho que ela. A única coisa que ele tinha era papo. E um papo com bafo de cachaça. Ô Chica, mais uma!

Peixoto – Vai entender. Sei que depois de uns três meses eles casaram. Casaram não, se amontoaram. Foram pra casa dele, ali na Sofia. Sabe, aquela ruazinha da Cidade Baixa, perto dos comunas?

Luís – Parece que foram felizes enquanto o velhinho tava vivo. Contrariou o Santana que diz que “alguns divórcios são amigáveis, mas todos os casamentos são litigiosos”.

Peixoto – Felizes eram mesmo. O problema foi ele, que já tinha os seus sessenta e picos, agradar a ela e o fogo dos vinte anos. Só usando o azulzinho.

Luís – Aaaahhh. O ecstasy da velhice. O lança-perfume do baile privê. O fôlego do pulmão cansado.

Peixoto – Mas tu lembra, né? Mesmo com a Zoraida, o seu Olavo vinha no bar todo dia e, às vezes, trazia ela. Sentava na mesma mesinha do fundo. Ele ainda pedia a fortinha com açúcar e um bolo de carne.

Luís – Um dia antes da morte do velho eu ouvi os dois conversando:

Zoraida – Paizinho, paizinho. Hoje a noite vai ser pequena.

Seu Olavo – Menina, menina. Assim tu mata o véio.

Zoraida – Fazer o que? Eu nunca te pedi nada material. Sempre preferi minhas bijuterias em vez de jóia cara. Sempre gostei das gafieiras de Ipanema em vez daquelas festas chiques dos teus ex-colegas da sociedade. Só faço questão de uma coisa: tico-tico no fubá toda a noite.

Seu Olavo – Menina safada... Vai indo pra casa que eu vou passar no seu Lautério da farmácia pra comprar uma pimenta. Me espera com o pijaminha do amor.

Zoraida – Hmmm...

Luís – Minha curiosidade foi maior que o meu juízo. Fui atrás pra ver o que ele tava indo comprar. Dito e feito. Chamou o seu Lautério de canto e pediu duas cartelas. Duas!

Peixoto – Opa! Foi a última noite do velho, mas pelo menos morreu feliz. Chica, vem!

Luís – Deve ter morrido feliz, sim. Mas a mulata... Pobre menina. No outro dia nenhum dos dois apareceu no bar. Achei estranho. Ninguém sabia deles. Foi só depois de dois dias que ela apareceu, de preto, cabeça baixa. Sentou na mesa de sempre e pediu uma cachaça com açúcar.

Peixoto – E a essa altura a gente também já desconfiava o que tinha acontecido.

Luís – É. E depois – só de curioso – eu sentei na mesinha do lado dela. A mulata só repetia uma coisa...

Zoraida – Eu queria toda a noite mas não queria te matar paizinho.

Luís – ... Eu entendi tudo.

Peixoto – É...

Luís – O véio queria tanto fazer a moça feliz que passou da conta. Comeu bala demais. O pobre tomou tanto viagra que parece que tiveram que lacrar o caixão. Não conseguiram vestir o seu Olavo, de tão duro que tava o corpo do homem.

Peixoto – E olha, acho que a mulata gostava dele, pois desde então nunca mais saiu de casa. Vem aqui vez que outra tomar uma cachacinha com açúcar e volta correndo. Até mudou a cor da casa. Tirou o azul que o velho tanto gostava e pintou tudo de branco.

Luís – Deve ser pra não trazer nenhuma recordação da causa da morte do marido.

Peixoto – É. Deve ser. Ô Chica!