quinta-feira, 20 de março de 2008

As quatro estações e a confiança de Isabela


- Escrito em 21 de junho

O inverno é uma estação triste. O frio, o vento, a geada. As pessoas ficam mais introspectivas, mais quietas. Há um resguardo maior de idéias, de pernas, de orelhas e de dentes. O brilho e o movimento de outrora dão lugar à hibernação das ações em forma de repressão dos desejos. Vejamos um exemplo: trabalho com uma menina chamada Isabela – a personificação do inverno. Há algum tempo observo ela passar apressada, pra lá e pra cá, sempre de cabeça baixa. Isa é uma menina interessante, loira, do tipo que habitualmente chamamos de mignon. Porém... não tem brilho. Isa anda sobre ovos, espiando por baixo de sua franja de cabelos crespos. Sua beleza quase adolescente fica escondida atrás de um escudo invisível, cuja função é resguardar seu cálido sorriso e esconder seu misterioso corpo de menina-moça dos olhares mais afoitos.

- Escrito em 22 de setembro

É na primavera que a grande maioria das flores desabrocha, assim como algumas meninas. Estas apresentam um renovado brilho nos olhos e um sorriso mais cativante, prenunciando, junto ao olor das roseiras, jasmins e malmequeres, o retorno de Cora. Pois bem. Observando Isa, vejo que a estação fez-lhe bem. Largou no fundo do guarda-roupas as pesadas japonas e botas de enormes plataformas. Parece mais descontraída. Agora, o tradicional bom-dia vem acompanhado de um enigmático sorriso. Chega até a parar pra conversar sobre frivolidades, como porque, meu deus(!), tem que estudar a vida de Santo Agostinho na faculdade. Ela está mudando. A opacidade está se esvaindo e, em seu lugar, está surgindo um brilho que uma flor só mostra mesmo na primavera.

- Escrito em 21 de dezembro

Todo homem sem-vergonha adora o verão. É no verão que o expediente no bar começa mais cedo, a cerveja desce melhor e, principalmente, é a época do ano em que as mulheres perdem a vergonha, no bom sentido (e, muitas vezes, também no mau). O comprimento das saias diminui drasticamente, assim como o de todas as outras peças do vestuário. Assim, aos homens, resta o exercício do voyerismo. E foi exercitando a mania de observar que conheci uma nova Isabela. Há alguns dias encontrei-a no corredor e disse o – oi, tudo bem – de sempre. Há duas estações ela diria um oi gaguejado, como quem se atrapalha com os óculos. Há uma estação, sorriria e conversaríamos um pouco sobre temas cotidianos. Porém, agora... agora ela passa por mim e, me olhando de frente e nos olhos, me diz um breve oi por entre as covinhas. Esboça o sorriso de Mona Lisa e o olhar das Odaliscas de Renoir. Segue com passadas firmes dentro de seu vestido floreado, na altura dos joelhos. Suas ações, tão decididas, me fazem instintivamente olhar pra trás. Tenho que ter mais atenção. Não quero ser surpreendido, como diversas vezes, estático, no meio do corredor, observando...

- Escrito em 20 de março

Sempre vemos o outono representado por folhas caídas, ventos fortes, ipês pelados e o lançamento da próxima coleção primavera-verão. É quando o frio retorna ao Pampa. Então, geralmente com casacos mais pesados do que a necessidade obriga, desfilamos pela Rua da Praia nos sentindo verdadeiros ingleses pelas alamedas de London. Como a estação é a última antes do inverno, o terreno vai sendo preparado para a introspecção pessoal lembrada há nove meses atrás. Porém, o declínio no humor não é regra. E a exceção é Isabela. Tinha cá pra mim que a amena primavera e o tórrido verão sulino haviam sido os responsáveis por sua mudança e, seguindo a lógica, haveria uma retroação com o outono. Enganei-me. Isa desvencilhou-se de vergonhas, tabus e preconceitos. A confiança passou a jorrar aos borbotões quando caminha jogando seu cabelo pra lá e pra cá. A antiga menina-moça transformou-se em uma exuberante mulher, e os homens que, como eu, só a observam, voltaram a sua juvenil condição de meninos-moços.

Quem pode com uma mulher confiante?


terça-feira, 11 de março de 2008

Carta a Ernst Ludwig Kirchner (In Memorian)

Olá, caro professor. Escrevo para parabenizá-lo pelo grande mestre e artista que foi. Ícone na Bauhaus, grande expressionista, criador e criatura de obras que, com peculiar sutileza, traduziram o sentimento de uma mente brilhante em traços decididos.
Como gostaria de ter tido tempo para pedir-lhe um pouco de paciência com os ignorantes do mundo. Esses, não passando de algozes de ocasião, agem agressivamente por despeito. Citam os esclerosados clássicos para menoscabar os de sua fina linhagem. Porém, isso não passa de uma autodefesa engendrada pelas dúvidas que possuem perante suas próprias convicções.
Sei que você prezava a razão, contudo, expor com inocentes, mesmo com a mordaz intenção vexatória de terceiros maliciosos, se configurou em uma oportunidade sem-par. Embora não tenha seguido o niilismo insurgente dos dadaístas, tampouco o delírio espontâneo dos surrealistas, creio que a imaculada criatividade dos que, pejorativamente, são chamados de retardados, poderia ter enchido seu peito de discrição e sua cabeça de idéias, se assim você permitisse.

Portanto, agora que os únicos resquícios de sua inspiração vital são as obras que imortalizou, resigno-me. Aos seus inimigos, não juro vingança. O próprio tempo será o juiz de seus infortúnios, mostrando para os acadêmicos que a arte é algo mutável e assim deve ser percebida. E, se concluírem que o vanguardismo é prejudicial ao futuro artístico, estarão sepultando a si próprios em vida, pois nada pior para a inteligência e o bom senso do que a cristalização do pensamento.

Um cordial abraço.

Do seu
Mateus Ferraz de Farias.

terça-feira, 4 de março de 2008

O Bar do Aderbal - Apresentação

O Bar do Aderbal é um destes locais onde a gente se sente em casa. O cafezinho da manhã, o engasga-gato do meio-dia, o répiauer da tarde e a cachacinha no fim de noite, sempre no Aderbal. Aliás, a ida ao estabelecimento é tão corriqueira para uns, que esses chegam a chamar o local de escritório. Isso porque nas mesas desse pitoresco boteco são decididos desde divórcios a importantes acordos comerciais, conforme se contará mais adiante. Agora, para expor a magnitude do pequeno botequim, vamos destrinchá-lo em partes, contando um pouco de sua história e outros sucessos pertinentes ao bom nome construído por seu fundador.

LOCALIZAÇÃO

Situado na esquina da Rua Angenor de Oliveira com a Avenida Antônio Carlos Jobim, o bar não tem mais que trinta metros quadrados. Porém, mesmo com o diminuto espaço, seus clientes se sentem à vontade. Isso se explica pela hospitalidade do Aderbal e pela gama de bebidas oferecidas que, segundo Chica, o único garçom, é a maior da vizinhança.

REFERÊNCIAS

VISUAIS: A fachada é em estilo Barroco. No meio de duas volutas, bem no alto, fica o luminoso com o nome do local, o repetidamente mencionado Bar do Aderbal. Já o interior lembra os botecos da Lapa dos anos 50 e conta com duas mesas montáveis, além dos bancos altos em frente ao balcão.


OLFATIVAS: Todos conhecem o odor (ou olor, na pena do poeta) característico do bar. Os mais assíduos podem dizer até a hora, sem olhar no relógio, com uma única cafungada na frente do boteco, pois o cardápio varia conforme o passar do dia. Aos cidadãos comuns, digo que, ao passar junto à porta do Aderbal, o cheirinho de gordura é quase como um tapete vermelho, convidativo para uma boquinha. Penetrando o recinto, os aromas ficam mais marcantes. Oferece-se às narinas uma mistura de pinga com butiá, conserva de ovo com pepino, bife na chapa, café repassado, uísque de garrafão, peixe assado e algumas outras iguarias, tão odoríferas quanto saborosas. Peça uma tulipa de 500 e sinta a fragrância agridoce emergente da bolacha (onde se encontra a inscrição "Malt 90 – Cerveja Pilsen").


AUDITIVAS: Por se tratar de um estabelecimento de esquina, a poluição sonora pode incomodar os clientes instalados na calçada. Mas, como nem todo motorista é mal educado, pode-se manter um compreensível colóquio entre algumas buzinas e freadas. Dentro do lugar é diferente. Como as portas não são muito largas, as grossas paredes dão conta de bloquear a turbulência externa. Os poucos rumores que perpassam essa barreira, são abafados pela música ambiente proveniente do rádio Mullard de 3 válvulas, comprado especialmente para a Copa de 58, na Suécia. Porém, hoje, só sintoniza a rádio Caiçara, a preferida do Adeba.

ATENDIMENTO

Quem faz a “triagem” dos clientes é o Chica. Francisco Ermenegildo, o Chica, é o homem de confiança do Aderbal. É ele quem faz os pedidos, mexe no dinheiro e atende o público. Camisa para fora da calça de linho vincada, chinelo de dedos, canetinha atrás da orelha e bloco de anotações são as marcas registradas do visual do Chica. Mas não se engane! Apesar do jeito muitas vezes considerado desleixado de se vestir, ele é uma flor de educação e polimento. Para sair do sério, só se aparecer no bar aqueles que fingem ignorar o cartaz atrás do balcão onde está escrito claramente: “Fiado, só para maiores de 90 anos acompanhados de pai, mãe e um avô”.

O ADERBAL

O Adeba, como é carinhosamente chamado pelos assíduos do bar, começou com o negócio após se desiludir com o sistema. Uns dizem que foi depois que Falcão trocou o Internacional pelo Roma, outros vão mais além e dizem que o caso envolve uma história de traição que nunca foi bem resolvida. Seja lá qual for a versão, o resultado da incursão do Aderbal no mundo dos negócios foi um sucesso. Isso se deve à austeridade com que comanda o negócio. O fiado foi cortado há muito. Também já foi mencionado que seu braço-direito, o Chica, é zeloso na assistência administrativa. Além disso, o sorriso cativante a quem chega e a cerveja sempre gelada contribuem positivamente para a divulgação do melhor botequim da cidade, segundo seus satisfeitíssimos freqüentadores.

CAUSOS

Os próximos episódios deste simpático bar e os sucessos nele ocorridos serão entregues aos leitores nas próximas postagens.