sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Pequeno perfil de um cidadão comum

Mateus Ferraz de Farias. Nascido sem eira nem beira na sexta-feira santa de 1984. O parto normal, ocorrido às onze e quarenta e cinco da noite do dia vinte de abril, trouxe, além de alegria para toda a família, uma oitentena para a mãe, visto que o bebê tinha quase quatro quilos e meio.
Passada a infância – onde os maiores feitos são a primeira palavra, a primeira ida ao banheiro sozinho, o primeiro dia na creche e todas as outras primeiras vezes do período – entrou na pré-escola sabendo ler e escrever. Claro que somente o beabá, o que para ele já estava de bom tamanho. Criado pela mãe e pela avó em uma redoma de cuidados, não possuiu a desenvoltura de outros garotos que cresceram por conta, subindo em árvores e indo a mictórios de estádios de futebol com o pai. Assim, Mateus foi se aproximando dos menos populares no colégio. Esses eram o João, gordinho escoteiro, Aarão, o coroinha magrelo e Douglas James, o filho dos roqueiros. Engana-se quem acha que Mateus não se divertia com esses tipos. Roubavam goiabas, jogavam pega-varetas, faziam campeonatos de Atari e, mais tarde, na adolescência, bebiam Keep Cooler, observavam as meninas e fumavam (mas não tragavam). Com o fim do ensino médio se separaram por causas naturais, voltando a se encontrar apenas via Orkut, como acontece hoje em dia com todos.
Assim que completou dezoito anos, pensou em tudo o que poderia fazer na nova fase da maioridade. Poderia viajar sozinho, comprar carro, beber legalmente e entrar em estabelecimentos onde antes era barrado. Porém, sempre liso, não concretizou quase nada do planejamento inicial. Mesmo assim, se sentia mais livre, podendo fugir por direito do chiqueirinho estabelecido pelas matriarcas. Foi por volta dessa época, talvez um pouco antes, que conheceu algo que iria mudar sua vida. A música.
Quando conheceu a MPB de Chico, a bossa nova de João Gilberto e o samba de Cartola encontrou o que tanto procurava. Ao ganhar uma leva de LPs e um eletrofone Philips de um tio, passou a se dedicar a descobrir mais sobre aqueles nomes até então desconhecidos. Tornou-se muito introspectivo na fase de pesquisa. Descobriu os festivais, as noitadas na casa de vista paradisíaca de Nara Leão no Rio e o bar Zicartola. Apaixonou-se pela boemia que envolvia os movimentos e os músicos. Cantarolava sem parar: “Ainda é cedo amor...”.
O próximo passo para Mateus era conhecer os lugares de onde aquelas pessoas tiravam a sua inspiração. Como não tinha fundos para ir até os bares da Lapa, nem ser mais um voyeur das areias de Copacabana e tampouco subir o Morro da Mangueira, se contentou com os bares do Mercado Público, o som hiperconceitual tocado na Cidade Baixa e o carnaval da Zona Norte. Ao entrar pelas portas desses recintos, uma nova percepção tomou conta de sua vida. Assim como Huxley, maravilhou-se com o novo universo que estava sendo apresentado. Queria fazer parte de tudo aquilo. Queria estar próximo dos que, assim como ele, gostavam de sentar-se e ouvir música. E só. Enfim, queria ser careta e boêmio como todos que agora o rodeavam.
A aventura que começou com a música e se transformou em um estilo de vida para Mateus, o deixou mais feliz. Poderia discorrer uma noite inteira sobre tudo, sempre acompanhado de um copo de cerveja em algum botequim da cidade, e acordar no dia seguinte apenas para aguardar a chegada da noite. Dizia que as ressacas das noites mal dormidas eram como troféus para o verdadeiro boêmio. Afundava-se em grossos livros com a assinatura de Vinícius, Ruy Castro, Chico, Mautner e tantos outros. Claro que ouvia críticas pelo seu jeito despojado. Porém, seu discurso era sempre de frases de efeito, dizendo que devia aproveitar a vida, que essa era uma só, que nunca tinha feito nenhum amigo tomando leite, entre outras pérolas da sabedoria dos botequins. Em dado momento, deixou de responder e de se importar.
***
Assim, com essa carga de histórias reais - com alguns incrementos -, termino essa apresentação feita entre um copo e outro de cerveja, na mesa de algum bar e com os primeiros raios de sol batendo na cara.
“Chega de saudade...”