quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Darci e a tevê


Darci cresceu em frente à tevê.

Quando criança, mal acordava e já corria para o sofá. Com um sonoro clique, ligava a Telefunken de 14 canais. Assim que os parcos pixels do aparelho formavam a primeira imagem, sua hipnose iniciava. E ali ficava. Como não era fiel a nenhum programa específico, levantava algumas vezes para trocar o canal. Sim, precisava ir até o televisor, pois o controle remoto, tal como conhecemos hoje, ainda não era muito difundido (se bem que alguns usavam um cabo de vassoura para, remotamente, pressionar os botões equivalentes a cada emissora. Darci, contudo, ainda não conhecia o artifício). E assim passeava, como criança que era, pelos vários apresentadores infantis do final dos anos 80 e início dos 90.

Darci, ao chegar o meio-dia, cedia aos apelos de sua mãe:

- Meu filho, vem almoçar e descansa os olhinhos...

Cinco minutos. Esse era o tempo necessário para Darci devorar um bife e uma folha de alface.

Após o ritual, voltava a sua poltrona na sala. Estavam começando os seriados mexicanos.
À tarde, assistia a reapresentações de novelas. Darci nunca se perguntou se valia a pena ver de novo, mas via. Depois, filmes de crianças perdidas, macacos inteligentes ou romances platônicos (pelo menos até a última parte do filme).


Após a sessão de cinema, Darci deglutia o lanche da tarde. Isso em dois minutos, pois tinha que voltar correndo para assistir os humorísticos do horário. E, terminadas as comédias, antes da novela das seis, um evento sempre pegava nosso telespectador de surpresa. A tela da tevê ficava com chuviscos e o som do alto-falante não passava de um monótono chiado. Darci se apressava em levantar para mexer no seletor de imagem. Porém, a meio caminho, sua mãe lhe avisava:

- Não te preocupa. É lá!

- Como assim? – replicava Darci.

- Tu não ouviu? O locutor disse que vão trocar o equipamento. – treplicava a mãe de nosso distraído infante.

Voltando à razão, Darci assistia a novela das seis e a das sete. Pausa para o noticiário local, o nacional. Ao final da sessão informativa, regozijava-o a possibilidade de acompanhar o desfecho da trama das nove horas.

Assim, o pobre menino entrava noite adentro não indo para a cama antes da meia-noite. Dormia até o outro dia, quando o ciclo descrito reiniciava.

***

Darci cresceu e sua relação com a tevê não se modificou. Claro que agora, depois de adulto, seu tempo livre é menor. Como trabalha, perde pelo menos oito horas da programação televisiva. Mesmo assim, nas horas vagas, é fiel ao tubo de imagem que, para ele, é uma janela que reflete toda a verdade do mundo, boa ou má. Ah, sem falar que agora, ao sentar no sofá, tem em seu poder um controle remoto, o que facilitou-lhe as coisas.

***
***


N. A.: Após passar para o papel a história de Darci, a revisei muitas vezes. Embora o personagem tenha sido uma criação minha, sem nenhuma relação com alguma história existente, tive a impressão de que ele realmente existia. Não sei explicar, mas sua vida me condoeu. Tive pena do menino que tinha a televisão como única referência educativa, assim como lamentei pelo jovem que preferia a falsa companhia do equipamento à presença das pessoais reais.

Pensei, pensei. Vi que meu sentimento era fruto da percepção que tenho desta nova sociedade. Não que eu ache que a era da eletrônica seja o fim dos tempos, mas, ao perceber o distanciamento das pessoas devido às novas formas de entretenimento, que limam os contatos tradicionais (aqueles cara-a-cara), cheguei a conclusão de que deveria ter nascido em outra época.

E quanto ao Darci do conto... Continua alienado.

***

Peésse um: Só pra lembrar que o Brasil está cheio de pessoas como o Darci.

Peésse dois: E são pessoas assim que criam a nova geração, votam nos governantes, dão aulas para nossos filhos, etc.

Peésse três: E como diria Jayme Copstein... "Pensem a respeito".

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Poemeto 02

Rotina

Se entrega
Esquece
Acaba e padece

A cantoria da cidade
Rouba-lhe o pouco
Outrora iminente,
sono. PORCO!

Molha, enche,
afoga, preenche,
solta, prende,
volta, sente,
chora.
Mente.
E volta às esquinadas.

- Hum. Como sempre.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Poemeto 01

Queria te ver...

Óia aí o verme que rói
- Queria te ver
- Engraçadinho...

(...)

Pior que a perda da carne:
suportar o escarninho,
o inconveniente à parte

... te come e sai de fininho.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Bar do Aderbal - Episódio 03

Coisa de veado

Um certo dia, ao começar a preparar o bar para os trabalhos da noite, Aderbal ouviu gritos e puteadas de alguém que se aproximava da porta. Num vu, parou a seleção das salsichas para os róti dóguis da noite (laranja pra cá, verde pra lá) e passou a prestar atenção naquela montoeira de impropérios ditos a altos brados. Ouviu o seguinte:

- Onde já se viu? Quem que o Catimbó pensa que é? Não se respeita mais nada mesmo.

Catimbó era um dos apelidos do Evilásio Chorão, dono do Bar do Catimbó, que ficava quase defronte ao Adeba e era um de seus principais concorrentes.

Três segundos de silêncio e Aderbal vê Chica adentrar o bar, vermelho e com seus cacoetes característicos. O dono do bar chamou o garçom até o balcão, tomou posse daquela cachaça batizada com maracujá e camomila (aquela do episódio 02) e prescreveu duas doses ao pobre.

Mais calmo, Chica começou o conto da situação.

- Ora! O Catimbó ta dizendo pra todo mundo que vir até o nosso bar é coisa de veado. Onde já se viu? Quem que o Catimbó pensa que é? Não se respeita mais nada mesmo. Onde já se...

- Calma Chica. Deixa pra mim que eu sou canhoto. O Catimbó vai ter uma boa surpresa.

A galinha d’angola parou de dizer to fraco? Não. Pois é. Nem Chica se acalmou. Mas, como bom escudeiro que era, confiou que o Aderbal daria um jeito na situação.

Vale explicar que Chica não era uma pessoa cheia de preconceitos. O uso da palavra veado só o irritou por ter sido dita de maneira pra lá de pejorativa pelo Catimbó. E pejorativismos em relação ao Bar do Aderbal não eram aceitos pelo Chica, que amava seu emprego e tinha o Aderbal como a um irmão. Só por isso que ficou chateado.

Ao cair a noite, o movimento do bar começou a aumentar. Chica, cego pela raiva que ainda sentia, começou a analisar os clientes que entravam pela diminuta porta do recinto. Nada de anormal.

Porém, lá pelas onze horas, chega um casal meio estranho. Ela de cabelo curto e sem pintura. Ele de cabelo comprido, num rabo de cavalo, cheio de pinduricalhos. Chica se aproximou da mesa e perguntou o que iriam beber. Ela pediu uma cerveja. Ele, uma Fanta uva. Nosso garçom achou estranho, mas atendeu o pedido.

Logo depois, dois amigos engravatados chegaram e pediram martini (Não se esquece da azeitona, ta?).

Duas amigas, a seguir, quiseram experimentar o mondongo frito, uma das especialidades do bar. Chica não achou isso muito ortodoxo.

E assim, analisando quem chegava e quem saía, o garçom continuou o resto da noite. Pensava que Catimbó poderia estar certo, pois aqueles tipos eram muito estranhos mesmo. Mas, fazer o quê? O bar era aber...

Nesse momento, passando das duas da manhã, o pensamento de Chica foi interrompido por um assovio do Aderbal.

- Gostaria da atenção de todos!

Assim que a assistência se aquietou, Adeba iniciou a palestra.

- Tomei conhecimento que o Catimbó, nosso vizinho do bar da frente, anda difamando meu estabelecimento. Disse aos quatro ventos que vir no Aderbal é coisa de veado. Na verdade, eu quero dizer que ele ta certo.

Todos pararam chocados com a declaração. Aderbal prosseguiu:

- Disse que ele ta certo por que o Bar do Aderbal não só é coisa de veado, como é coisa de homem, de mulher, de preto, de branco, de manco, de coxo. Isso por que todo mundo vem no Aderbal. E pra acabar com qualquer mal entendido hoje tem cerveja de graça pra todo mundo.

Ao fim do discurso, a platéia aplaudiu animada e ficou a espera do prometido. Chica, em contrapartida, apenas suspirou e murchou em sua cadeira.

A noite ia ser grande para o nosso garçom preferido.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Bar do Aderbal - Episódio 02

Mondongo Frito

Banheiros de bar. Sempre uma incógnita. Há casos em que, chegando à porta, surge a dúvida se devemos entrar ou segurar mais um pouco. Isso porque, inicialmente, queremos apenas devolver ao vaso a cerveja pela via fisiológica mais corriqueira. Porém, ao entrar em certas privadas, nos deparamos com um recinto mais fedido que arroto de corvo. Nesses casos, para evitarmos esta exposição desnecessária ao fedor, tentamos utilizar nossa bexiga até o nível máximo, momento em que ela apresenta os primeiros protestos.

Por outro lado – para nossa sorte -, existem proprietários de bares que sabem tratar bem seus clientes, oferecendo, além da cerveja estupidamente gelada para um batalhão, um banheiro em boas condições de uso.

Nesse quesito, o Bar do Aderbal ganha 10. Porém, não pense que você encontrará papel higiênico com aroma de pêssego silvestre, guardanapos ao lado do mictório ou ventinho quente para secar as mãos. Isso não é coisa de boteco. Quem quiser essas chiquezas deve procurá-las em um xópim cênter. O bom banheiro de botequim deve estar, se não com o olor de flores e lavanda, pelos menos com o perfume marcante do alvex. E nesse sentido, Chica não se descuida nem por um minuto. A salinha, ostentando uma imponente placa com as letras W.C., conta apenas com o trono, uma pia e um espelho. Como é usado pelos dois sexos e, sabidamente, as mulheres são mais higiênicas que os machos, existe o rolinho de papel ao alcance da mão de quem estiver sentado no vaso. Claro que o papel não tem frescura. É o de lixa. Mas, cumpre bem a sua tarefa de higienizador íntimo.

O vecê do Bar do Aderbal fica no fundo do estabelecimento, ao lado do balcão. Assim Chica, entre um pedido e outro, sempre dá uma conferida no cheirinho vindo da casinha. Ao sentir qualquer fragrância ofensiva às narinas, nosso garçom preferido corre com uma garrafinha verde e borrifa uns quantos jatos no chão que espalha usando um rodo com um pano enrolado na ponta. Pronto. Tudo perfumado.

Claro que alguns fedores são inevitáveis, principalmente nos dias em que o Aderbal faz seu temível mocotó. Ainda bem que a maioria dos freqüentadores do local é educada, produzindo vapores fétidos com parcimônia. Porém, sempre tem aqueles que erram a pontaria. E o pior: muitas vezes fazendo o número dois. Quando isso acontece, os relaxados ficam à mercê da ira do Chica.

Certa vez, o Helião, um negão de dois metros de altura, ex-beque do time dos Azedos, da vila Rusga, teve o desplante de pintar a porcelana por fora. E ele nem estava tão mal assim. Tinha tomado recém a sexta cerveja e comido a segunda bandeja de mondongo frito, uma das especialidades do bar. Mesmo assim, deixou o banheiro um nojo.

Assim que sentiu o prenúncio da desgraça por via nasal, Chica sacou a garrafa verde e o rodo e se foi ao toalete. Porém, ao ver aquela obra de arte surrealista (com matéria-prima dadaísta) largou tudo no chão e saiu pisando firme. Parou na frente da mesa do Helião bufando. Chica era um sarro quando ficava nervoso. Brotavam-lhe uns cacoetes que só passavam após tomar dois martelinhos de uma cachaça batizada com maracujá e camomila que, estrategicamente, Aderbal deixava sempre a mão. E assim estava Chica, todo se piscando, na frente do Helião. Soltou um extenso repertório de palavrões que só conseguiu fazer com que o ex-beque soltasse uma sonora gargalhada.

Ao ver o desdém do Helião, Chica partiu para as vias de fato. Menos mal que, primeiramente, foi contido pelo ex-ponteiro-direito e o ex-centroavante do time dos Azedos. Porém, a contenção não foi suficiente e logo uma seleção de ex-jogadores segurava nosso simpático garçom.

Nesse momento, vendo a mobilização de onze pessoas para segurar um homem sozinho, o Helião deve ter se assustado, pois, ao ver a cena, engoliu a risada que estava rindo e levantou-se de um pulo. Encaminhou-se para a porta do banheiro, recolheu o alvex e o rodo do chão e pôs-se a limpar o estrago que tinha feito. Logo que terminou, deixando o toalete com o bom cheiro característico, saiu da salinha. Ao ver os rostos estupefatos dos presentes, tentou se explicar:

- Que foi? Sujei o banheiro e limpei. Mas declaro que sou inocente. O que aconteceu é que as minhas tripas não agüentaram esse mondongo estragado que o Chica me serviu.

Ouvindo isso, pela primeira vez na noite, Chica, que não admitia ouvir ninguém levantar suspeitas sobre a comida do bar, realmente saiu do sério. Precisava cobrar a enxovalhada que Helião dera no mondongo frito preparado por ele. Assim, de cabeça quente, não teve cachaça batizada, ex-time ou choro de mulher que o segurasse. Partiu pra cima do homem. Por sorte, o ex-beque se esquivou e tomou o rumo de casa, na vila Rusga. Chica ainda se recompôs, chegou na porta do bar e gritou, para deleite da assistência:

- Vai c-c-cagar e-em ca-casa, p-porco!

Todos contiveram o riso e Chica, triunfante após ter corrido o homem do bar, berrou aos presentes:

- Mondongo frito por conta da casa!

E todos se refestelaram em suas cadeiras.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Uísque, martini e o barman

Ele estava no bar. Sozinho, como de costume. Sentava na mesma mesa de sempre, ao fundo. Gostava da visão que o lugar proporcionava. Podia ver quem entrava, quem saía. Olhava com curiosidade as pernas que passavam. Queria entender a métrica daquelas pernas. Tomava o terceiro uísque da noite. Girava as duas pedras de gelo de seu copo. Sentia os olhos já marejados. Ela entrou...

Loura, pele clara, talvez um metro e setenta, cabelos crespos – sim, naquele dia estavam crespos. Usava um vestido preto que adelgaçava seu corpo já esguio. Sentou-se em um banco alto, em frente ao balcão. Pediu um martini. Dispensou a oliva. Ele a observava...

Ele capturava cada movimento. Chamou-lhe a atenção a pequena gota de martini que, insistente, queria cair-lhe da boca em direção ao queixo e que foi contida por seu dedo médio. Ah, unhas vermelhas. Observava seus olhos curiosos. Olhos que pareciam mais ouvir que ver. E vendo e ouvindo ela continuou, enigmática, no balcão...

Ele decidiu levantar-se. Apoiou as duas mãos na mesa. Recuou. O que diria? Decidiu-se, novamente. De súbito, pôs-se de pé. Caminhou em sua direção. Sentou-se ao seu lado. Iniciou o diálogo:

- Oi.
- Oi.
- João.
- Estela.


Ao fim das palavras, calaram-se. O silêncio imperou. A agitação do bar continuava. Mas eles não ouviam. Apenas se olhavam. Não há como precisar o tempo em que se olharam. A única certeza é que não desviaram os olhos um do outro...

Em um rompante – inesperado, porém desejado – ele pegou sua mão. Isso foi o estopim que esperavam. Levantaram-se juntos. Encaminharam-se para a porta. Ele mal teve tempo de pegar seu casaco. Saíram impetuosamente.

E o barman, que a tudo assistia, parou. Gostaria de saber o final dessa história. Porém, teve que se contentar apenas com a imaginação. Afinal, essa não passou de mais uma história que, para ele, acabou ao passar pela diminuta porta do bar.

terça-feira, 15 de abril de 2008

O Bar do Aderbal - Episódio 01

A Morte do Velhinho

Peixoto - Há quanto tempo a gente vem no Aderbal, hein?

Luís - Sei lá. Sei que faz tempo. Ô Chica, mais uma ceva!

Peixoto – Pois é. Como a gente viu coisa nesse tempo.

Luís – Isso é verdade. Muitas histórias começaram ou acabaram por aqui. Muitas mudanças.

Peixoto - Parece que a única coisa que não muda é o bar. Lembra que na primeira vez que a gente veio aqui o garçom já era o Chica? A fachada barroca, o baleiro em cima do balcão, o cardápio proibido pra hipertensos...

Luís - ... O seu Olavo.

Peixoto – O seu Olavo! Que figura! Triste o fim do seu Olavo.

Luís – Lembra que ele sempre se sentava naquela mesinha ali do fundo?

Peixoto – Claro. Todo dia a mesma coisa. Chegava e pedia:

Seu Olavo – Ô Chica! Vê pra mim aquela fortinha e o açucareiro. Traz também um bolinho de carne.

Luís – Isso durante uns dez anos, se bem me lembro.

Peixoto – É. Mas como todo o homem que abaixa a guarda, se perdeu por um rabo de saia.

Luís – Eu lembro. Ah, eu já conhecia a Zoraida de longa data. Mulata fogosa. Um metro e setenta de pura malícia. Não media palavras. Sabia viver a vida.

Peixoto – E quando chegou aqui parece que, de propósito, foi sentar na mesa do lado à do seu Olavo. Aí começou a perdição do velho.

Luís – Eu ouvi o primeiro contato dos dois. Se não me falha a memória foi isso o que aconteceu:

Seu Olavo – Uma menina sozinha num bar como esse? Ou ta procurando namorado ou fugindo de um.

Zoraida – O senhor é atrevido, sabia? Não to fazendo nem uma coisa nem outra. Vim para tomar uma cerveja. Ta cheio de homem aqui fazendo isso. Qual é o problema?

Seu Olavo – Nenhum, nenhum. Eu sou a favor da igualdade dos sexos. Mas vem cá. Senta aqui comigo que eu te pago uma bebida e ainda te defendo.

Zoraida – Me defende?

Seu Olavo – Ora, minha filha. Você não sabe os perigos que uma moça sozinha pode passar em um bar. Eu tenho tarimba. O garçom já me trata por tu. Senta aqui que o velhinho te cuida.

Luís – E ela foi. Mulata airosa. Não sei o que chamou a atenção dela no seu Olavinho. Dinheiro tinha, mas não era rico. Talvez uns quarenta anos mais velho que ela. A única coisa que ele tinha era papo. E um papo com bafo de cachaça. Ô Chica, mais uma!

Peixoto – Vai entender. Sei que depois de uns três meses eles casaram. Casaram não, se amontoaram. Foram pra casa dele, ali na Sofia. Sabe, aquela ruazinha da Cidade Baixa, perto dos comunas?

Luís – Parece que foram felizes enquanto o velhinho tava vivo. Contrariou o Santana que diz que “alguns divórcios são amigáveis, mas todos os casamentos são litigiosos”.

Peixoto – Felizes eram mesmo. O problema foi ele, que já tinha os seus sessenta e picos, agradar a ela e o fogo dos vinte anos. Só usando o azulzinho.

Luís – Aaaahhh. O ecstasy da velhice. O lança-perfume do baile privê. O fôlego do pulmão cansado.

Peixoto – Mas tu lembra, né? Mesmo com a Zoraida, o seu Olavo vinha no bar todo dia e, às vezes, trazia ela. Sentava na mesma mesinha do fundo. Ele ainda pedia a fortinha com açúcar e um bolo de carne.

Luís – Um dia antes da morte do velho eu ouvi os dois conversando:

Zoraida – Paizinho, paizinho. Hoje a noite vai ser pequena.

Seu Olavo – Menina, menina. Assim tu mata o véio.

Zoraida – Fazer o que? Eu nunca te pedi nada material. Sempre preferi minhas bijuterias em vez de jóia cara. Sempre gostei das gafieiras de Ipanema em vez daquelas festas chiques dos teus ex-colegas da sociedade. Só faço questão de uma coisa: tico-tico no fubá toda a noite.

Seu Olavo – Menina safada... Vai indo pra casa que eu vou passar no seu Lautério da farmácia pra comprar uma pimenta. Me espera com o pijaminha do amor.

Zoraida – Hmmm...

Luís – Minha curiosidade foi maior que o meu juízo. Fui atrás pra ver o que ele tava indo comprar. Dito e feito. Chamou o seu Lautério de canto e pediu duas cartelas. Duas!

Peixoto – Opa! Foi a última noite do velho, mas pelo menos morreu feliz. Chica, vem!

Luís – Deve ter morrido feliz, sim. Mas a mulata... Pobre menina. No outro dia nenhum dos dois apareceu no bar. Achei estranho. Ninguém sabia deles. Foi só depois de dois dias que ela apareceu, de preto, cabeça baixa. Sentou na mesa de sempre e pediu uma cachaça com açúcar.

Peixoto – E a essa altura a gente também já desconfiava o que tinha acontecido.

Luís – É. E depois – só de curioso – eu sentei na mesinha do lado dela. A mulata só repetia uma coisa...

Zoraida – Eu queria toda a noite mas não queria te matar paizinho.

Luís – ... Eu entendi tudo.

Peixoto – É...

Luís – O véio queria tanto fazer a moça feliz que passou da conta. Comeu bala demais. O pobre tomou tanto viagra que parece que tiveram que lacrar o caixão. Não conseguiram vestir o seu Olavo, de tão duro que tava o corpo do homem.

Peixoto – E olha, acho que a mulata gostava dele, pois desde então nunca mais saiu de casa. Vem aqui vez que outra tomar uma cachacinha com açúcar e volta correndo. Até mudou a cor da casa. Tirou o azul que o velho tanto gostava e pintou tudo de branco.

Luís – Deve ser pra não trazer nenhuma recordação da causa da morte do marido.

Peixoto – É. Deve ser. Ô Chica!

quinta-feira, 20 de março de 2008

As quatro estações e a confiança de Isabela


- Escrito em 21 de junho

O inverno é uma estação triste. O frio, o vento, a geada. As pessoas ficam mais introspectivas, mais quietas. Há um resguardo maior de idéias, de pernas, de orelhas e de dentes. O brilho e o movimento de outrora dão lugar à hibernação das ações em forma de repressão dos desejos. Vejamos um exemplo: trabalho com uma menina chamada Isabela – a personificação do inverno. Há algum tempo observo ela passar apressada, pra lá e pra cá, sempre de cabeça baixa. Isa é uma menina interessante, loira, do tipo que habitualmente chamamos de mignon. Porém... não tem brilho. Isa anda sobre ovos, espiando por baixo de sua franja de cabelos crespos. Sua beleza quase adolescente fica escondida atrás de um escudo invisível, cuja função é resguardar seu cálido sorriso e esconder seu misterioso corpo de menina-moça dos olhares mais afoitos.

- Escrito em 22 de setembro

É na primavera que a grande maioria das flores desabrocha, assim como algumas meninas. Estas apresentam um renovado brilho nos olhos e um sorriso mais cativante, prenunciando, junto ao olor das roseiras, jasmins e malmequeres, o retorno de Cora. Pois bem. Observando Isa, vejo que a estação fez-lhe bem. Largou no fundo do guarda-roupas as pesadas japonas e botas de enormes plataformas. Parece mais descontraída. Agora, o tradicional bom-dia vem acompanhado de um enigmático sorriso. Chega até a parar pra conversar sobre frivolidades, como porque, meu deus(!), tem que estudar a vida de Santo Agostinho na faculdade. Ela está mudando. A opacidade está se esvaindo e, em seu lugar, está surgindo um brilho que uma flor só mostra mesmo na primavera.

- Escrito em 21 de dezembro

Todo homem sem-vergonha adora o verão. É no verão que o expediente no bar começa mais cedo, a cerveja desce melhor e, principalmente, é a época do ano em que as mulheres perdem a vergonha, no bom sentido (e, muitas vezes, também no mau). O comprimento das saias diminui drasticamente, assim como o de todas as outras peças do vestuário. Assim, aos homens, resta o exercício do voyerismo. E foi exercitando a mania de observar que conheci uma nova Isabela. Há alguns dias encontrei-a no corredor e disse o – oi, tudo bem – de sempre. Há duas estações ela diria um oi gaguejado, como quem se atrapalha com os óculos. Há uma estação, sorriria e conversaríamos um pouco sobre temas cotidianos. Porém, agora... agora ela passa por mim e, me olhando de frente e nos olhos, me diz um breve oi por entre as covinhas. Esboça o sorriso de Mona Lisa e o olhar das Odaliscas de Renoir. Segue com passadas firmes dentro de seu vestido floreado, na altura dos joelhos. Suas ações, tão decididas, me fazem instintivamente olhar pra trás. Tenho que ter mais atenção. Não quero ser surpreendido, como diversas vezes, estático, no meio do corredor, observando...

- Escrito em 20 de março

Sempre vemos o outono representado por folhas caídas, ventos fortes, ipês pelados e o lançamento da próxima coleção primavera-verão. É quando o frio retorna ao Pampa. Então, geralmente com casacos mais pesados do que a necessidade obriga, desfilamos pela Rua da Praia nos sentindo verdadeiros ingleses pelas alamedas de London. Como a estação é a última antes do inverno, o terreno vai sendo preparado para a introspecção pessoal lembrada há nove meses atrás. Porém, o declínio no humor não é regra. E a exceção é Isabela. Tinha cá pra mim que a amena primavera e o tórrido verão sulino haviam sido os responsáveis por sua mudança e, seguindo a lógica, haveria uma retroação com o outono. Enganei-me. Isa desvencilhou-se de vergonhas, tabus e preconceitos. A confiança passou a jorrar aos borbotões quando caminha jogando seu cabelo pra lá e pra cá. A antiga menina-moça transformou-se em uma exuberante mulher, e os homens que, como eu, só a observam, voltaram a sua juvenil condição de meninos-moços.

Quem pode com uma mulher confiante?


terça-feira, 11 de março de 2008

Carta a Ernst Ludwig Kirchner (In Memorian)

Olá, caro professor. Escrevo para parabenizá-lo pelo grande mestre e artista que foi. Ícone na Bauhaus, grande expressionista, criador e criatura de obras que, com peculiar sutileza, traduziram o sentimento de uma mente brilhante em traços decididos.
Como gostaria de ter tido tempo para pedir-lhe um pouco de paciência com os ignorantes do mundo. Esses, não passando de algozes de ocasião, agem agressivamente por despeito. Citam os esclerosados clássicos para menoscabar os de sua fina linhagem. Porém, isso não passa de uma autodefesa engendrada pelas dúvidas que possuem perante suas próprias convicções.
Sei que você prezava a razão, contudo, expor com inocentes, mesmo com a mordaz intenção vexatória de terceiros maliciosos, se configurou em uma oportunidade sem-par. Embora não tenha seguido o niilismo insurgente dos dadaístas, tampouco o delírio espontâneo dos surrealistas, creio que a imaculada criatividade dos que, pejorativamente, são chamados de retardados, poderia ter enchido seu peito de discrição e sua cabeça de idéias, se assim você permitisse.

Portanto, agora que os únicos resquícios de sua inspiração vital são as obras que imortalizou, resigno-me. Aos seus inimigos, não juro vingança. O próprio tempo será o juiz de seus infortúnios, mostrando para os acadêmicos que a arte é algo mutável e assim deve ser percebida. E, se concluírem que o vanguardismo é prejudicial ao futuro artístico, estarão sepultando a si próprios em vida, pois nada pior para a inteligência e o bom senso do que a cristalização do pensamento.

Um cordial abraço.

Do seu
Mateus Ferraz de Farias.

terça-feira, 4 de março de 2008

O Bar do Aderbal - Apresentação

O Bar do Aderbal é um destes locais onde a gente se sente em casa. O cafezinho da manhã, o engasga-gato do meio-dia, o répiauer da tarde e a cachacinha no fim de noite, sempre no Aderbal. Aliás, a ida ao estabelecimento é tão corriqueira para uns, que esses chegam a chamar o local de escritório. Isso porque nas mesas desse pitoresco boteco são decididos desde divórcios a importantes acordos comerciais, conforme se contará mais adiante. Agora, para expor a magnitude do pequeno botequim, vamos destrinchá-lo em partes, contando um pouco de sua história e outros sucessos pertinentes ao bom nome construído por seu fundador.

LOCALIZAÇÃO

Situado na esquina da Rua Angenor de Oliveira com a Avenida Antônio Carlos Jobim, o bar não tem mais que trinta metros quadrados. Porém, mesmo com o diminuto espaço, seus clientes se sentem à vontade. Isso se explica pela hospitalidade do Aderbal e pela gama de bebidas oferecidas que, segundo Chica, o único garçom, é a maior da vizinhança.

REFERÊNCIAS

VISUAIS: A fachada é em estilo Barroco. No meio de duas volutas, bem no alto, fica o luminoso com o nome do local, o repetidamente mencionado Bar do Aderbal. Já o interior lembra os botecos da Lapa dos anos 50 e conta com duas mesas montáveis, além dos bancos altos em frente ao balcão.


OLFATIVAS: Todos conhecem o odor (ou olor, na pena do poeta) característico do bar. Os mais assíduos podem dizer até a hora, sem olhar no relógio, com uma única cafungada na frente do boteco, pois o cardápio varia conforme o passar do dia. Aos cidadãos comuns, digo que, ao passar junto à porta do Aderbal, o cheirinho de gordura é quase como um tapete vermelho, convidativo para uma boquinha. Penetrando o recinto, os aromas ficam mais marcantes. Oferece-se às narinas uma mistura de pinga com butiá, conserva de ovo com pepino, bife na chapa, café repassado, uísque de garrafão, peixe assado e algumas outras iguarias, tão odoríferas quanto saborosas. Peça uma tulipa de 500 e sinta a fragrância agridoce emergente da bolacha (onde se encontra a inscrição "Malt 90 – Cerveja Pilsen").


AUDITIVAS: Por se tratar de um estabelecimento de esquina, a poluição sonora pode incomodar os clientes instalados na calçada. Mas, como nem todo motorista é mal educado, pode-se manter um compreensível colóquio entre algumas buzinas e freadas. Dentro do lugar é diferente. Como as portas não são muito largas, as grossas paredes dão conta de bloquear a turbulência externa. Os poucos rumores que perpassam essa barreira, são abafados pela música ambiente proveniente do rádio Mullard de 3 válvulas, comprado especialmente para a Copa de 58, na Suécia. Porém, hoje, só sintoniza a rádio Caiçara, a preferida do Adeba.

ATENDIMENTO

Quem faz a “triagem” dos clientes é o Chica. Francisco Ermenegildo, o Chica, é o homem de confiança do Aderbal. É ele quem faz os pedidos, mexe no dinheiro e atende o público. Camisa para fora da calça de linho vincada, chinelo de dedos, canetinha atrás da orelha e bloco de anotações são as marcas registradas do visual do Chica. Mas não se engane! Apesar do jeito muitas vezes considerado desleixado de se vestir, ele é uma flor de educação e polimento. Para sair do sério, só se aparecer no bar aqueles que fingem ignorar o cartaz atrás do balcão onde está escrito claramente: “Fiado, só para maiores de 90 anos acompanhados de pai, mãe e um avô”.

O ADERBAL

O Adeba, como é carinhosamente chamado pelos assíduos do bar, começou com o negócio após se desiludir com o sistema. Uns dizem que foi depois que Falcão trocou o Internacional pelo Roma, outros vão mais além e dizem que o caso envolve uma história de traição que nunca foi bem resolvida. Seja lá qual for a versão, o resultado da incursão do Aderbal no mundo dos negócios foi um sucesso. Isso se deve à austeridade com que comanda o negócio. O fiado foi cortado há muito. Também já foi mencionado que seu braço-direito, o Chica, é zeloso na assistência administrativa. Além disso, o sorriso cativante a quem chega e a cerveja sempre gelada contribuem positivamente para a divulgação do melhor botequim da cidade, segundo seus satisfeitíssimos freqüentadores.

CAUSOS

Os próximos episódios deste simpático bar e os sucessos nele ocorridos serão entregues aos leitores nas próximas postagens.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Pequeno perfil de um cidadão comum

Mateus Ferraz de Farias. Nascido sem eira nem beira na sexta-feira santa de 1984. O parto normal, ocorrido às onze e quarenta e cinco da noite do dia vinte de abril, trouxe, além de alegria para toda a família, uma oitentena para a mãe, visto que o bebê tinha quase quatro quilos e meio.
Passada a infância – onde os maiores feitos são a primeira palavra, a primeira ida ao banheiro sozinho, o primeiro dia na creche e todas as outras primeiras vezes do período – entrou na pré-escola sabendo ler e escrever. Claro que somente o beabá, o que para ele já estava de bom tamanho. Criado pela mãe e pela avó em uma redoma de cuidados, não possuiu a desenvoltura de outros garotos que cresceram por conta, subindo em árvores e indo a mictórios de estádios de futebol com o pai. Assim, Mateus foi se aproximando dos menos populares no colégio. Esses eram o João, gordinho escoteiro, Aarão, o coroinha magrelo e Douglas James, o filho dos roqueiros. Engana-se quem acha que Mateus não se divertia com esses tipos. Roubavam goiabas, jogavam pega-varetas, faziam campeonatos de Atari e, mais tarde, na adolescência, bebiam Keep Cooler, observavam as meninas e fumavam (mas não tragavam). Com o fim do ensino médio se separaram por causas naturais, voltando a se encontrar apenas via Orkut, como acontece hoje em dia com todos.
Assim que completou dezoito anos, pensou em tudo o que poderia fazer na nova fase da maioridade. Poderia viajar sozinho, comprar carro, beber legalmente e entrar em estabelecimentos onde antes era barrado. Porém, sempre liso, não concretizou quase nada do planejamento inicial. Mesmo assim, se sentia mais livre, podendo fugir por direito do chiqueirinho estabelecido pelas matriarcas. Foi por volta dessa época, talvez um pouco antes, que conheceu algo que iria mudar sua vida. A música.
Quando conheceu a MPB de Chico, a bossa nova de João Gilberto e o samba de Cartola encontrou o que tanto procurava. Ao ganhar uma leva de LPs e um eletrofone Philips de um tio, passou a se dedicar a descobrir mais sobre aqueles nomes até então desconhecidos. Tornou-se muito introspectivo na fase de pesquisa. Descobriu os festivais, as noitadas na casa de vista paradisíaca de Nara Leão no Rio e o bar Zicartola. Apaixonou-se pela boemia que envolvia os movimentos e os músicos. Cantarolava sem parar: “Ainda é cedo amor...”.
O próximo passo para Mateus era conhecer os lugares de onde aquelas pessoas tiravam a sua inspiração. Como não tinha fundos para ir até os bares da Lapa, nem ser mais um voyeur das areias de Copacabana e tampouco subir o Morro da Mangueira, se contentou com os bares do Mercado Público, o som hiperconceitual tocado na Cidade Baixa e o carnaval da Zona Norte. Ao entrar pelas portas desses recintos, uma nova percepção tomou conta de sua vida. Assim como Huxley, maravilhou-se com o novo universo que estava sendo apresentado. Queria fazer parte de tudo aquilo. Queria estar próximo dos que, assim como ele, gostavam de sentar-se e ouvir música. E só. Enfim, queria ser careta e boêmio como todos que agora o rodeavam.
A aventura que começou com a música e se transformou em um estilo de vida para Mateus, o deixou mais feliz. Poderia discorrer uma noite inteira sobre tudo, sempre acompanhado de um copo de cerveja em algum botequim da cidade, e acordar no dia seguinte apenas para aguardar a chegada da noite. Dizia que as ressacas das noites mal dormidas eram como troféus para o verdadeiro boêmio. Afundava-se em grossos livros com a assinatura de Vinícius, Ruy Castro, Chico, Mautner e tantos outros. Claro que ouvia críticas pelo seu jeito despojado. Porém, seu discurso era sempre de frases de efeito, dizendo que devia aproveitar a vida, que essa era uma só, que nunca tinha feito nenhum amigo tomando leite, entre outras pérolas da sabedoria dos botequins. Em dado momento, deixou de responder e de se importar.
***
Assim, com essa carga de histórias reais - com alguns incrementos -, termino essa apresentação feita entre um copo e outro de cerveja, na mesa de algum bar e com os primeiros raios de sol batendo na cara.
“Chega de saudade...”